Brasil Holandês é tema de mostra no Rijksmuseum em Amsterdã

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Conhecer um novo país é sempre uma aventura. Mas nem sempre é tarefa fácil absorver o tsunami de novidades que vem pela frente. Quem está turistando e, principalmente, morando em outro país conhece bem a situação.

Pior ainda para um holandês caindo de paraquedas no Brasil do século 17, quando ninguém sabia direito como nossa terra era. E mais: o trabalho dele era justamente reproduzir tudo aquilo nas suas pinturas.

É esse o pano de fundo da exposição Frans Post: Dieren in Brazilië (Animais no Brasil) que está rolando no Rijksmuseum em Amsterdã. É uma chance incrível de redescobrir nosso próprio país. Quer ver só?

Exposição Frans Post: Animais no Brasil no Rijksmuseum
Brasil é destaque no Rijksmuseum. Detalhe: esse macaco, na verdade, é de origem angolana (aguenta aí que eu já explico isso)

Frans Post, um precursor dos blogueiros de viagem

A exposição é uma viagem no tempo. Mais precisamente, para o Brasil das Invasões Holandesas.

O Frans Post viveu no país por 7 anos, a convite de Maurício de Nassau. Ele fazia parte de uma comitiva com renomados cientistas, cartografistas e tantos outros, cuja missão era coletar informações sobre o país e levar isso para o velho continente.

Sem câmera, GoPro e muito menos pau de selfie, era de Frans Post e seus pincéis a responsa de retratar a paisagem dessa terra ainda desconhecida. Enquanto isso, seu colega Albert Eckhout se especializava em retratar a população local.

Rio São Francisco, Frans Post, 1639. Museu do Louvre, Paris
Selfie com a capivara naquele tempo, nem pensar. (Rio São Francisco, Frans Post, 1639. Museu do Louvre, Paris)

Desse trabalho conjunto nasceu a publicação História Natural do Brasil, que foi tipo um blog de viagem com uma pegada mais científica, sabe? 😜

Durante sua estadia no Brasil Frans Post produziu ainda 18 quadros, dos quais apenas 7 são conhecidos nos dias de hoje. Pouco trabalho, não acha? Mas essa percepção acaba de mudar.

Coleção aumentada em 1000%

A exposição do Rijksmuseum tem uma importância histórica, já que ela exibe pela primeira vez desenhos recém-descobertos do pintor. Isso aumentou a coleção do artista em inacreditáveis mil por cento! Mas onde esses desenhos estiveram esse tempo todo?

Eles ficaram durante séculos muito bem guardados no Noord-Hollands Archief (Arquivo da Holanda do Norte), localizado em Haarlem, cidade-natal do Frans Post. A descoberta só foi feita em 2010, graças ao processo de digitalização do arquivo. É um daqueles clássicos casos de se guardar algo tão bem que, no final, ninguém nem lembra mais que existe!

Capivara, Frans Post, c. 1638–1639. Noord-Hollands Archief, Haarlem
Olha só o estudo da capivara, pintado a guache, que foi usado pro quadro lá de cima! (Capivara, Frans Post c. 1638–1639. Noord-Hollands Archief, Haarlem)

Os estudos dos animais retratados vêm acompanhados de observações do pintor, que muitas vezes chegam a ser hilárias.

Comer tatu é bom

Imagina alguém vendo um tatu pela primeira vez na vida. E ainda tentando explicar para outra pessoa que também nunca viu um como é esse bicho. Complicado! Por isso, para quem conhece bem esses animais, as anotações do pintor são simplesmente pra rolar de rir .

Para o Frans Post, o tatu era “um tipo de porco com armadura. Bom de comer, tem gosto de galinha”.

Tatupeba. Frans Post. Hollands Archief, Haarlem
Comer tatu é bom, que pena que dá dor nas costas… (Tatupeba. Frans Post, c. 1638–44. Hollands Archief, Haarlem)

Tudo indica que o Frans Post nunca precisou sair caçando tatu, capivara ou qualquer outro animalzinho pra fazer seu trabalho. Ele se tornou muito próximo de Maurício de Nassau, que tinha um zoológico particular. Conseguiu visualizar melhor a *vida sofrida* que Mau-Mau e seus parças levavam no Brasil?

Mas voltando às anotações: até sobre a personalidade dos animais o Frans Post dava palpite. O guenon de bigode foi descrito como “um macaco de nariz azul da Angola, 50cm de altura, muito bravo e maldoso”. Opa, peraí, um macaco da Angola? Mas o nome da exibição não é “Animais no Brasil”?

Guenon de Bigode, Frans Post, c. 1638–1644. Noord-Hollands Archief
A galera azucrina o macaquinho e depois não quer que ele fique bravo…
(Guenon de Bigode, Frans Post, c. 1638–1644. Noord-Hollands Archief)

Sim, essa espécie realmente é de Angola, mas foi retratada no Brasil. Como a Angola estava na rota do tráfico de escravos, é muito provável que o guenon tenha sido levado para o Brasil como “lembrancinha”. 😢

Percebe como um simples desenho pode revelar muita coisa sobre o Brasil da época?

Volta à Holanda

Um dia a boa vida no Brasil tinha de acabar. A Companhia das Índias Orientais (WIC, em holandês) vivia se desentendendo com o Maurício de Nassau. A WIC só queria saber de maximizar seus lucros com o comércio de açúcar. O Mau-Mau trazia lucro, mas por outro lado investira tubos (da WIC) com desenvolvimento da região, tinha seu palácio, zoológico particular, parças comitiva…

Quem trabalha sabe como a história termina. “Seu Maurício, o pessoal da WIC tá chamando você lá no RH”. Aposto que isso aconteceu numa sexta-feira, no final do expediente.

Panorama Brasileiro, , Frans Jansz Post, 1652. Rijksmuseum
Nunca mais essa vista da janela de casa, Mau-Mau. Só em quadro mesmo. Que fase! (Panorama Brasileiro, Frans Post, 1652. Rijksmuseum)

Mas a vida na Holanda também foi muito boa. Com o dinheiro ganho no Brasil, o Maurício de Nassau construiu seu palacete, o Mauritshuis. Ele foi transformado em museu e é uma das principais atrações turísticas de Haia.

Aliás, o arquiteto-assistente desse projeto foi o Pieter Post, irmão mais velho do Frans. Acredita-se inclusive que foi ele quem indicou o irmão caçula, até então desconhecido, para a comitiva do Maurício de Nassau. QI é tudo nessa vida, né?

Já o Frans Post fez fama e fortuna com suas pinturas. Se no Brasil ele havia feito apenas 18 quadros, de volta à Holanda ele mandou ver. Não faltaram clientes para suas obras, maravilhados com as paisagens e animais exóticos dessa terra distante chamada Brasil.

View of Olinda, Brazil, Frans Jansz Post, 1662. Rijksmuseum
Aí o Frans já pirou e botou tamanduá junto com tatu e a preguiça andando no chão, mais um macaco ali perto… o importante é deixar o cliente feliz! (View of Olinda, Brazil, Frans Jansz Post, 1662. Rijksmuseum)

Animais no Rijksmuseum em pintura e… ao vivo (quase)

Um ponto alto da mostra é que, além de poder contemplar essas obras (e muitas outras), você também pode compara-las com os animais de verdade, ali mesmo.

É que o Rijksmuseum fez uma parceria com o Naturalis, o Museu de Ciências Naturais de Leiden, que disponibilizou sua coleção de animais empalhados para essa exibição. Assim, você consegue ter um panorama completo do processo de criação do Frans Post: o objeto de estudo, o estudo em si e a pintura.

Onça Pintada no Rijksmuseum em Amsterdam, emprestada pelo museu Naturalis em Leiden
Na parede, a onça desenhada pelo Frans Post. No dia da minha visita ao Rijks, rolou um workshop de desenho. Como você pode ver, o modelo real chamou muito mais a atenção.

Dentre os animais empalhados, há tamanduá, cobra, tatu, jacaré, macacos e até uma lhama, que faz referência a uma expedição do Maurício de Nassau ao Chile. É realmente impressionante o trabalho de preservação do Naturalis – um museu que, diga-se de passagem, faz muito tempo que eu quero conhecer!

Aviso: don’t shoot the messenger. Não fui eu que empalhei os pobres animaizinhos. Eu mal consigo tocar num frango cru, amigo! Para reclamações, favor entrar em contato diretamente com o Naturalis em Leiden, belê? Obrigada! 😘

Visite o Rijksmuseum sem filas

Como o Rijksmuseum é um dos museus mais visitados de Amsterdã, a grande dica é comprar os ingressos online. Assim, você entra direto no museu, sem enfrentar filas.

Comprando o ingresso neste link, além de economizar tempo, você ainda dá aquela forcinha pro Holandesando. A entrada para o Rijksmuseum já inclui a exposição Frans Post: Dieren in Brazilië, sem qualquer acréscimo.

Se você quiser, também dá para agendar uma visita guiada oferecida pelo próprio Rijksmuseum (que foi uma das fontes utilizadas para esse artigo, juntamente com o catálogo da exposição). Disponível em inglês e holandês.

Serviço

Frans Post: Dieren in Brazilië
Até 8 de janeiro de 2017
Aberto diariamente, das 9 às 17h
Rijksmuseum
Museumplein/Museumstraat 1 – Amsterdã
Site
Ingressos online: evite fila! (Parceiro Holandesando)
Mapa

ECONOMIZE COM O HOLANDESANDO: Booking.com

18 COMENTÁRIOS

  1. Vi grande parte das obras de Frans Post no Instituto Ricardo Brennand, achei fantástico! E da próxima vez que me referir a ele, certamente usarei isso de “precursor dos blogueiros de viagem”! hahaha

    • Uau, ver as obras dele em Recife e fazer a comparação in loco deve ser um arraso!! :O

      Pode botar o Américo Vespúcio e o Pero Vaz de Caminha nessa listinha aí também (mas eles são mais old school ainda, daquele tempo em que só tinha Geocities, com muito texto e pouco recurso visual, rs)
      Abraços!

  2. Roberta, adoooooro teus textos….. choro de rir com eles! Quando fui pro Rijks, ele estava sério demais, sem esses animaizinhos fofos de terras selvagens! Mas adorei conhecer a casa do Mau-mau!

  3. Acho o Rijks um dos melhores museus do mundo. Amo! Queria muito poder ver esta exposição ao vivo, mas como não será possível, adorei viajar pelo texto e pelas fotos. Curiosidade: esta semana estava lendo uma matéria sobre o choque cultural entre os luso-brasileiros e os holandeses durante o tempo que Nassau passou por aqui e há uma ilustração de Frans Post sobre a vida no Brasil. Em tempo: uma das minhas maiores, se não a maior, frustrações de viagem é não ter visto a Moça do Brinco de Pérola em Haia, pois estava emprestado a NYC porque o Mauritshuis estava em reforma 🙁 bj Ana

    • Agora eu fiquei curiosa sobre essa matéria. Vou dar uma caçada no Google pra ver se encontro!

      E o jeito vai ser voltar à Holanda pra poder ver a Moça com o Brinco de Pérola, né, rs

      Abs!

  4. Nossa que legal, muito bom ver o Brasil reconhecido em outros países, por motivos artísticos! Eu amei o Rijksmuseum!!

  5. Roberta o Brasil teve muita sorte em ter o Frans Post (apesar das pirações) por aqui. Isso nos rendeu registros que praticamente nenhum país (do nosso tempo) possuí. E agora rendeu essa fantástica exposição!

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