Paris nunca mais! (Ou o Cabuloso Destino de Roberta Lan)

  • Torre Eiffel em Paris com texto paródia de Paris Je t'aime. Em vez disso está escrito Paris jamais!

"Mal cheguei a Paris e já tô detestando! Inferno de cidade!". Foi o que pensei em mandar pelo WhatsApp pra minha amiga. Pra desabafar. Ela já sabia que a ideia de voltar a Paris nunca me empolgou muito.

Mas nhé, ficar reclamando também não resolve. Desisto. No mesmo instante o metrô chega. Entro aliviada. Agora falta pouco pro dia começar de verdade. É quando começa uma gritaria danada do lado de fora. Voz de mulher.

Grito, porrada e... bomba???

O metrô volta a abrir todas as portas. Todos atônitos, tentando entender o que estava acontecendo.

"Pelo menos estou segura aqui dentro", penso. A gritaria continua. "Meu Deus, será que tem uma bomba aqui no metrô? Será que é nesse nível que o meu dia vai ser ainda pior???"

A tal mulher está agora de frente para o nosso vagão. Começo a entender palavras soltas do que ela grita. "MADAME", "VALISE!!!". Valisa? Olho em volta. A única pessoa que tem uma mala ali sou eu!

Arregalo os olhos. De repente, todos os rostos se viram para mim. E a mulher, da plataforma, acusa com o dedo: "SIM, VOCÊ!"

EU???? MAS O QUE FOI QUE EU FIZ???

Hoje é dia de 7x1, bebê

Era 5h da manhã e o dia já havia começado todo errado para mim. Perdi a hora, coisa que nunca faço quando vou viajar. Ainda mais uma viagem com compromisso profissional. Consigo pegar o trem que sai da minha cidade no horário, mas aí...

Depois de uma pequena epopeia, chego ao Gare du Nord em Paris às 11h30, aos gritos de "É TETRAAAA!". O que eu nem desconfiava é que, na verdade, hoje ia ser dia de 7x1.

Minha primeira parada na estação de trem é no guichê de informações e venda de ingressos.

- Bonjour. Você tem ingresso para o Museu Marmottan?
- Só tem ingresso para o que tá nessa lista aí! – a atendente responde, rispidamente.

Percebe, Ivair, a petulância do cavalo? 🐴

Olho para o papel colado no vidro. Só tem meia dúzia de atração manjada e que prefiro comprar online, caso eu resolva ir. Mas ingresso pro Marmottan nem à venda no próprio site deles tinha. "Nossa e agora? Será que eu pego muita fila lá?", penso em silêncio. Parece que a minha cara pensativa também não agrada a atendente:

- É ISSO O QUE TEM! SE TÁ ACHANDO RUIM, BLABLABLABLA...

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OI???

É bem com essa cara da Rihanna que eu olho de volta pra ela e penso "volta pro pão, carne louca!". Mas por um problema de tradução, acabo optando por um debochado "fuck you" mesmo. Pardon my French.

Essa é a pessoa que trabalha pro turismo de Paris. Se ela é assim, imagina o resto, bicho! 😂

Taí mais um motivo pra sempre comprar ingresso online. Sempre que der, pelo menos.

Dedo Podre

Melhor comprar logo os bilhetes do metrô e vazar daqui. O que é feito sem contato com franceses, para minha alegria. 3 máquinas travadas depois, já começo a desconfiar que é o meu dedo que está com defeito. A quarta máquina funciona. E descubro que justo ela só aceita moedas.

Eu sempre carrego moedas comigo porque sei que na Holanda é essencial. Mas ter € 14,90 já é um pouco demais! Mas beleza, lá pela sétima máquina deu tudo certo. Finalmente!

Agora é só chegar à plataforma do metrô. O que é praticamente uma experiência sobrenatural.

O Vale dos Suicidas

Pra quem conhece a novela A Viagem, o Gare du Nord é que nem o Vale dos Suicidas: um monte de espírito sem luz invadindo o seu espaço e pedindo esmola insistentemente. Dê trela e tenha sua alma – e carteira – sugadas. Hora de resgatar minha origem paulistana.

Estação Gare du Nord em Paris

Gare du Nord, uma armadilha de Satanás em forma de estação. Eu repreendo! (Foto: Bert Kaufmann - CC BY-NC 2.0)

Fecho a cara, piso firme, ando rápido e não dou confiança pra ninguém. Mas quem sempre viveu no Jardim da Dinah e do Otávio não sabe como o forró toca por essas bandas. Tipo a mulher que andava logo à minha frente, que não resistiu à pergunta da simpática moça:

- Oi, você fala inglês? É que eu tenho esse abaixo-assinado...

Meu Deus, ainda esse golpe do abaixo-assinado??? Isso é do tempo em que Jesus tinha dente de leite! 

A mulher pára para pegar a caneta e me desacelera junto. Nisso, uma outra já quer colar em mim com a mesma conversa:

- Oi, você fala...
- NÃO!

A mulher na minha frente acorda com o meu grito, larga a caneta e se manda também. Já fiz a minha boa ação do dia.

Sigo em frente, distribuindo vários NÃOS e botando malandro pra correr. Mas depois de anos de calmaria na Holanda, agir assim não faz mais parte do meu estado natural. É pose. E fazer pose cansa.

Chego na plataforma e, junto comigo, o metrô. O desabafo no WhatsApp fica pra outra hora. Confiro novamente se estou realmente indo na direção certa. Depois de tantos pequenos infortúnios, todo cuidado é pouco.

Plataforma da estação de Metrô do Gare du Nord, em Paris

Plataforma do Metrô Gare du Nord. Taí um lugar que vai ser difícil de eu esquecer um dia. (Foto: Ed Webster - CC BY 2.0)

Tudo certo. Daqui a uma estação chego no hostel e deixo toda essa ziguizira pra trás. Ledo engano.

Em vez disso, gritos, metrô parado, medo de eu ir pelos ares e a mulher falando da minha mala e apontando para mim. O inferno começa pra valer agora.

Terrorista, eu???

Eu não consigo acreditar. Minha mala está carregada, sim, mas de presentinhos de Sinterklaas e outras lembrancinhas para o encontro com os blogueiros de viagem do qual eu fui participar. Até olho de novo pra mala pra ver se ela não havia sido trocada. Vai que...

Tudo isso corre pela minha cabeça em frações de segundo. A cabeça e o coração a mil. Mas a mulher prossegue. Agora num inglês precário, acompanhado de gestos:

- Você, com a mala. Sim, você. Coloca a mão no seu bolso.

Enfio a mão no bolso. É quando sinto o vazio. Meu Deus, meu celular sumiu!

É como se uma corrente elétrica percorresse o meu corpo. Ao mesmo tempo vem uma sensação de perda, um enorme vazio. Muito maior do que aquele vazio da minha mão perdida no bolso.

E agora, o que é que eu vou fazer?

Mágica no absurdo

- Vem aqui!

Ainda em choque, pego minha mala e saio do vagão de volta para a plataforma. Como uma espectadora que atravessa a tela do cinema e agora faz parte do filme. No papel de protagonista.

O trem continua parado, com as portas abertas. Sinto todas as atenções se voltando para mim. Dou passos pequenos, tímidos, diante da plateia. A vergonha da superexposição. Torcendo pra que nenhum infeliz jogue aquilo na internet em troca de alguns likes. A mulher continua:

- Calma. Eu sou policial. Nós já prendemos os assaltantes. Olha!

Eu estou tão atordoada que só agora percebo os dois homens algemados na plataforma. Eles fazem cara de coitadinhos e, pela forma como falam, acredito dizer que aquilo é um engano, que eles nunca roubaram nada... enfim, qualquer coisa assim. É quando a mágica acontece.

Um outro policial, também à paisana, começa a tirar celulares dos bolsos deles. Mas não é meia dúzia, não! São muitos! Demais!

Meus olhos não acreditam naquilo. Nunca vi tanto celular na minha vida. Parece aquele truque em que o mágico vai puxando vários lenços e não acaba nunca, sabe?

É tudo tão absurdo que eu começo a olhar em volta, tentando identificar a armação. É como se a qualquer momento o Sérgio Mallandro fosse pular na minha frente e gritar:

Sérgio Mallandro dizendo: RÁ! PEGADINHA DO MALLANDRO!

Daí eu abraço ele e digo meio chorando, meio sorrindo: Pô, Serginho, você me pegou, cara. Sacanagem!

Mas a policial me traz de volta à louca realidade mais uma vez. Ela me mostra o seu distintivo, pra ver se eu acredito naquela cena toda. E também apresenta a prova do crime:

- É esse o seu celular?
- Sim! Nossa, muito, mas muito obrigada mesmo!

Já que não teve Sérgio Mallandro, é a policial que eu tô quase abraçando, de tanto alívio. Mas alegria de pobre dura pouco.

No que estendo a mão para pegar o celular, ela responde:

- Você precisa ir comigo pra delegacia registrar queixa. Só assim você vai poder pegar o seu celular de volta.
- Ah, não! Eu acabei de chegar! Por favor, me deixa ir embora! Olha, na capa do celular tem o cartão do trem (o OV Chipkaart da Holanda). Tem meu nome e foto nele, pode conferir!

Ela confere e diz que, mesmo assim, não tem jeito. Ela tem de seguir o protocolo. E lá vou eu numa van junto com os meliantes até a delegacia, viver mais um capítulo desse inferno que foi o meu dia.

Minha primeira atração em Paris: a delegacia

Delegacia de Polícia em Paris

Não rolou de fazer selfie na minha primeira atração. Vai a imagem do Google Maps mesmo. Disgurpa.

"Fica tranquila. Daqui a pouco vem um policial conversar com você. Daí você assina o boletim de ocorrência e recebe o seu celular. Só vai levar alguns minutos."

Alguns minutos? No Brasil, delegacia nunca leva alguns minutos. Será que aqui é diferente?

Não, não é. Nem um pouco.

Não é por acaso que não há sequer um relógio na parede daquele lugar. Começo a perder a noção do tempo. A fome aperta. Não fosse o sanduíche que comprei ainda em Roterdã, eu não teria nada para comer. Não que alguém ali se importe.

Quando pergunto quanto tempo ainda tenho de esperar, a resposta é sempre a mesma: "só mais alguns minutos". Isso quando a gente consegue se comunicar. O inglês deles era meio Joel Santana, mas com biquinho francês.

Um policial tenta me explicar mais uma vez que alguém que fala inglês está vindo para a delegacia me interrogar.

- Mas interrogar o quê, gente? Vocês sabem que eu não vi nada!

Eles não entendem a minha resposta. Mas sou brasileira e não desisto nunca:

- Eu tenho uma amiga em Paris que pode falar com vocês e fazer a tradução. Me deixa falar com ela.

Na verdade a tal amiga era a organizadora do evento, que deixou o número dela para caso de emergência. Acho que se encaixa na minha situação.

Tenho de repetir várias vezes, pausando, gesticulando... até que o policial me responde:

- Tudo bem. Você tem um telefone para ligar?

Sério, gente???

- Sim, tenho. Tá com vocês. É por isso que eu estou aqui.
- Ah, sim, queria saber se você tinha mais um telefone.

E eu tenho cara de central de atendimento? Já virou Zorra Total esse negócio, não é possível.

- Não, não tenho.

Ele liga para alguém e explica a minha situação. Desliga o telefone e responde:

- Não precisa ligar pra sua amiga. O policial já está chegando. Só mais alguns minutos.
- Mas eu quero falar com ela! Até ladrão tem direito a um telefonema e eu que sou vítima não tenho? Ninguém sabe onde eu estou, o que aconteceu comigo. Nem eu sei onde estou. Eu quero avisar alguém! Que diabo é isso? Primeiro, os ladrões me roubam. Agora, quem está roubando meu telefone são vocês!!!

Os policiais fazem cara de que não entenderam nada. Aí bate o desespero e começo a arriscar todos os idiomas que me vêm à mente:

- TELEPHONE. TE-LE-FO-NE. É MEU!!! MEEEEU!!! MINE! VAN MIJ!!! MOI! TELEFONE VAN MOI!!!

- Mais alguns minutos. Ele já está chegando.

Desabo na cadeira. Respiro fundo. Começo a pensar no que posso fazer. Se o meu celular fosse o Nokia da cobrinha, eu já teria ido embora. Mas daí lembrei que o problema não era só esse.

O endereço do hostel estava lá. Passagem, endereços, telefones. Nem o telefone do meu marido eu sei de cor. Quem decora telefone hoje em dia? Passa-se mais um longo tempo esperando "alguns minutos". É quando eu tomo uma decisão. Agora é tudo ou nada.

Pedro, me dá meu chip

Como se resolve um problema no Brasil quando ninguém tá nem aí pra você? É isso aí. Hora de dar aquele barraco. O senhor barraco.

https://youtu.be/yYtsvF6fj5A

"Eu não devia ficar com tanta raiva. Mas eu sou latina, então vou me sentir como eu bem entender."

Levantei irada e invadi sala por sala gritando pelo meu telefone. Tive o meu momento "Pedro, me dá meu chip" em plena delegacia parisiense. E decidi que só ia parar quando o maldito celular aparecesse na minha mão. Entretanto, o que apareceu foi uns 5 policiais correndo na minha direção.

É hoje que eu apanho da polícia. Em Paris.

Eu paro diante do cerco. Imediatamente eles param também. Mais policiais aparecem. Um deles vem com o celular e o boletim de ocorrência pronto pra eu assinar. O outro fala inglês quase perfeito e traduz o que estava escrito ali. Não podiam ter feito isso sei lá, umas 3 horas atrás?

Boletim de Ocorrência feito em Paris

Lembrancinha de Paris: o boletim de ocorrência

Francês é um povo chique. Eles apoiam o papel na parede do corredor onde estávamos e eu assino ali mesmo. Mas o importante é que estou livre. Ou melhor, no olho da rua.

Sim, porque agora eu estou ao deus-dará. Em que bairro estou? Não sei. Vão me levar pra algum ponto mais central da cidade? Não, eles não têm carro, é a resposta. Mesmo com vários deles estacionados na minha frente. "Aí na rua passa ônibus de volta pro Gare Du Nord". E eu que me vire.

A última coisa que eu quero é voltar praquela estação. Só se for pra pegar um trem de volta pra casa e acabar com aquilo de vez. Se não fosse o tal encontro com os blogueiros no dia seguinte...

Tento o Uber, mas nem ele dá certo. E lá vou eu sozinha pela rua atrás do tal ponto de ônibus, por falta de opção melhor. No final, se eu andei 50 metros foi muito.

Passa um táxi na rua. Dou sinal e sigo para o hostel, torcendo para não estar me metendo em encrenca mais uma vez.

Ema, ema, ema

Pegamos trânsito no caminho para Montmartre mas, fora isso, dá tudo certo. Com exceção do meu estado emocional. Esse não tá muito bom, não.

Não é só o roubo que me abala. É o conjunto da obra. É estar num lugar estranho e não me sentir bem-vinda, nem por um só segundo. É não conseguir me comunicar, seja por causa do idioma ou porque sou impedida de ligar pra alguém quando mais preciso, sem motivo algum. É ter a solitude, que eu aprecio tanto, transformada em solidão.

Mandar mensagem no WhatsApp não é mais mera reclamação. É grito de socorro. O Insta Stories também vira válvula de escape. Mas o que eu queria mesmo era uma pessoa de carne e osso na minha frente que pudesse me ouvir. Sobrou pro atendente do hostel.

- Oi, desculpa o atraso. Sei que tinha marcado de passar às 11h para deixar a mala, mas você não imagina o dia que eu tive... – e dá-lhe desabafo. A resposta do atendente foi pontual:
- Não se preocupe. O check in é só às quatro.

Meme da Xuxa verde falando Aham, Cláudia, senta lá

Então a Claudia Roberta aqui se senta e aguarda para fazer o check in. São 10 minutos pensando se ainda vale a pena insistir com essa cidade. Porque olha, nem a minha primeira visita foi lá essas coisas.

Não sei se fico, não sei se vou 

Não que tenha acontecido alguma coisa naquela ocasião. Quer dizer, aconteceu: eu vi que a Paris que mostram nos filmes só existe... nos cinemas. Quem bate perna pelas ruas logo percebe que a Paris de verdade é outra.

O que mais me chamou a atenção foi que, mesmo acompanhada e sem passar por problema algum, aquele lugar me passava uma insegurança muito grande. Por isso Paris sempre esteve lá no fim da lista de lugares pra voltar um dia. Inclusive até falei sobre isso em um post recente, mas de uma forma bem mais amena. Até porque, depois de 8 anos, minha percepção poderia mudar. Só não esperava que fosse pra pior.

Volto a pensar no evento que vou participar. No apartamento que eu aluguei com outras blogueiras, próximo ao nosso compromisso. No dia seguinte me mudo para lá. E de quebra também fico bem pertinho do Museu Marmottan, que tanto quero ver. Quem sabe longe do centro e estando acompanhada as coisas não melhoram?

Bem que eu queria tirar um cochilo. Mas com a cabeça tão cheia, não consigo relaxar. Ficar encolhida numa cama também não é comigo. Pego a minha doleira e resolvo que vou "flanar" pela rua, para espairecer. Mas as coisas não saem exatamente como eu esperava.

Lembranças de situações horríveis vividas em São Paulo invadem a minha mente. A rasteira na rua. Os chutes pra eu entregar a bolsa. O revólver apontado pra minha cabeça.

Vejo uma sombra em cima de mim. Grito de medo. Era só uma turista qualquer, que também se assusta com a minha reação.

E foi assim a minha caminhada por Montmartre. *Igualzinho* ao filme da Amélie Poulain. Desviando de grupos suspeitos, ignorando homens me cantando, tomando susto à toa. É como se eu não pudesse ter um minuto de sossego.  Me sinto transtornada. Melhor procurar outra coisa pra fazer.

A arte existe para que a verdade não nos destrua

Me refugio no Museu D'Orsay, que fica aberto nas noites de quinta-feira. Sabe aquela frase do Nietzsche "A arte existe para que a verdade não nos destrua"? Nunca fez tanto sentido pra mim. Principalmente na hora em que o museu vai fechar.

Interior do Museu D'Orsay em Paris

A arte existe para que a verdade não nos destrua.

Um tremendo pavor toma conta de mim. Não quero sair de lá de jeito nenhum. Porque sei que a verdade está do lado de fora, me esperando. E lá vem ela trombar comigo mais uma vez.

Já estava quase chegando de volta ao hostel quando um grupo só de homens vem na minha direção. Os carros no meio-fio me impedem de atravessar a rua. O grupo passa por mim. Menos um deles, que para na minha frente e bloqueia a minha passagem. Eu já estava no meu limite.

- Por favor, me deixa passar. Eu tive um péssimo dia.
- Eu também, eu também!

Nossa, esse entendeu muito o que eu falei. Fico tentando me esquivar, até que ele abre passagem. De longe, ouço o que deve ser alguma ofensa em francês e a risada do grupo. E lá se vai o enésimo "Fuck you!" que eu mando no dia.

https://youtu.be/6sSTVE-iTU8

Já passa da meia-noite quando eu finalmente consigo dormir. Só preciso de uma boa noite de sono. Mas nem isso eu consigo ter.

O grito

Acordo às 3h30 da manhã. Estou imóvel na cama, com os olhos arregalados. Como se tentasse enxergar alguma coisa na escuridão. Mil pensamentos desordenados passam pela minha cabeça, até que sinto algo gritando dentro de mim:

VOLTA PRA CASA. VOLTA PRA CASA.
VOLTA.
PRA.
CASA.

Eu quero ver meu marido. Eu quero ver meus coelhos, meu sobrinho. Eu quero ver a Parada do Sinterklaas!

Definitivamente minha viagem acaba aqui. Isso não tem mais conserto. Desço de pijama e vou fazer um chá.

O prejuízo com hospedagem, o encontro com os blogueiros, nada disso importa mais. Até porque, no estado em que estou, que tipo de companhia eu ia ser? Como é que eu ia conseguir aproveitar seja lá o que for?

Eu poderia subir naquele trambolho de Torre Eiffel e ver uma fucking aurora boreal com direito ao Jason Momoa fazendo pirocóptero pra todo mundo ver e tudo o que eu conseguiria pensar seria "o que esses filhos da puta franceses vão aprontar comigo dessa vez?". Com certeza coisa boa é que não ia ser.

Fixo meus olhos na caneca vazia. Preciso muito falar com alguém. Dessa vez, sou impedida pelo horário. Respiro.

A resposta sempre esteve no meu celular. Pego ele e faço o único telefonema possível: para a companhia de trem. Hora de fazer a mala e dar uma de Lulu Santos.

Tela do aplicativo para compra de passagem de trem de paris de volta a Rotterdam, na Holanda

Passagem de última hora = dá-lhe mais preju. :'(

Eu tô voltando pra casa outra vez

É a segunda troca de passagem que faço nessa viagem. A primeira foi para conseguir chegar a Paris. A segunda, pra sair o quanto antes desse lugar. No final, consigo encurtar a viagem de 4 dias para 19 horas. E ainda foi muito.

Chego às 6h da manhã ao Gare du Nord. Pensei que assim estaria livre dos espíritos obsessores. Aquele lugar foi construído em cima de um cemitério indígena, não é possível (se tem até múmia egípcia em Paris, porque não vai ter índio também? Ué).

Foi só botar o primeiro pé e lá vieram eles. Mais pedintes. Mais cantadas! É inacreditável!!! É tanto ódio e xingamento que saem de mim que devem achar que eu tenho síndrome de Tourette. Foi descoberta na França essa bagaça, né? Tá explicado.

Que vontade de ir embora dessa biboca gritando aos quatro ventos:

https://youtu.be/khAjWtZscKA

Mas a vida real é outra. Olho para o relógio da estação. Faltam 5 minutos para o embarque."Só mais alguns minutos." Finalmente as lágrimas caem e eu grito em desespero: EU QUERO IR EMBORA DAQUI!!!

O trem parte. Por mais um capricho do destino, viajo de costas. É como se eu fosse obrigada a ver aquele lugar uma última vez. Felizmente o breu é total, por conta do horário. A Cidade Luz já não existe mais. Ela foi engolida pelas trevas.

Nós sempre teremos a Holanda

Sem dúvida o melhor de Paris foi a volta pra casa. Chegando a Roterdã, vejo o sol brilhando forte. Coisa rara nessa época do ano. Desço do trem e imediatamente sou recepcionada com um vento geladíssimo no rosto. Que sensação boa!

Só então eu me dou conta do que a Holanda representa hoje para mim: o meu lar. E isso não tem nada a ver com o país ser de "primeiro mundo". Até porque dizem que a França também é e olha só no que deu...

Aqui estou de volta pra minha terra pra minha casa, pros meus coelhinhos. Pro meu marido e familiares, que me dão todo o carinho e apoio que eu preciso.

Foto Panorama do Castelo Renswoude durante a Parada do Sinterklaas no Outono da Holanda

E também estou de volta a tempo de ver a Parada do Sinterklaas com o meu sobrinho. Fomos ver a chegada em Renswoude, num castelo de verdade!

Graças a todos eles eu consigo superar a enorme frustração que foi essa viagem. É claro que perrengue a gente pode passar em qualquer lugar do mundo. Mas fala a verdade: você trocaria o sossego do seu lar pra passar o que eu passei em Paris?

A minha resposta você já sabe, né? Prefiro ficar por aqui mesmo, onde posso viajar pelo país inteiro me sentindo segura e respeitada. Ok, admito: às vezes levo susto aqui também.

Acredita que, dois dias antes de tudo isso acontecer, eu tava andando pelas ruas de Amsterdã quando dei de cara com o guitarrista do Queen, o Brian May?

Mas essa é outra história, que eu conto direitinho numa próxima vez. Até pra mostrar que a vida é cheia de surpresas boas também. E são nelas que eu quero focar.

Paris nunca mais!

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15 Comments

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    Carla Alexandra Fernandes Mota 13/12/2017 (20:50)

    Adorei o seu sentido de humor! eheheh Já me ri bastante lendo o seu post. Valeu. 😀

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    Thiago 13/12/2017 (03:36)

    Nossa que loucura, no inicio achei que fosse um conto fictício, mas depois que vi que era real, ou surreal, me prendeu até o fim. Que experiência.

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    Angela Castanhel 12/12/2017 (11:57)

    Que loucura, imagino seu desespero. Mas assim, quem sabe você da uma segunda chance para Paris? Voltei de lá tão encantada (com o lugar, não com as pessoas, porque é bem como você disse “você fala..” “NÃO”). Espero que numa próxima você tenha mais sorte. Pelo menos agora ficam as lembranças e historias.

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      Robbie Robbie 12/12/2017 (12:54)

      É, Angela, mas daí já seria uma terceira chance. Complicado, kkkkkk

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    Rebecca 11/12/2017 (23:57)

    Eu tive uma experiencia parecida na Holanda hahaha roubaram ate meu passaporte. Mas to voltando em breve sem ressentimentos, merda acontece em todo lugar :/

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      Robbie Robbie 12/12/2017 (12:56)

      Que péssimo, Rebecca! Sim, eu sei que merda pode acontecer em qualquer lugar. Mas cada um sabe o seu limite, né… comigo Paris estourou a cota, rs

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    Fernanda Scafi 07/12/2017 (18:58)

    Gente, que saga! E infelizmente com final triste… No começo era tanta confusão que até ri por aqui, mas dps fiquei com dó de vc :(. Eu não amei Paris, mas tb não odiei – passei 1 semana lá em 2003 qnd os perrengues eram menores e nunca voltei ainda. Ano passado, fiz 4 conexões em CDG, mas não fui pra cidade nenhuma vez hehehe. Tenho até medo de voltar hj em dia com o tanto que o pessoal fala mal. Da próxima vez que precisar falar com alguém as 3am daí, lembre-se que aqui vai ser tipo meia-noite – pode me chamar no face que eu durmo tarde rs. Bjs e enquanto o trauma não passa, continue postando sobre a Holanda linda!

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      Robbie Robbie 07/12/2017 (23:49)

      Sim, eu sabia que era meia-noite no Brasil, mas nem todo mundo é morceguinha que nem a gente, né? hahahaha!!!
      Mas obrigada pela força! Abraços!

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    Leonardo Vieira 04/12/2017 (14:10)

    Olá, Robbie!

    Fiquei 3 noites e 2 dias em Paris. Gostei bastante da cidade e digo que voltaria a visitar, mas também passei por alguns apuros por lá.

    Me identifiquei com alguns trechos do seu texto, sobretudo em relação aos pedintes. Em Gare du Nord eu não fui abordado tantas vezes como aconteceu com você, mas teve um cara que veio pedir dinheiro e simplesmente reclamou porque eu só dei duas moedas de valor baixo. As moedas não chegavam a 1 euro e ele fez cara feia. Não achei a estação tão assustadora, mas eu ficava sempre em alerta para ver se alguém se aproximava de mim de forma estranha. Como eu também estava sozinho, procurava ficar próximo a grupos de pessoas para me sentir mais seguro.

    Quanto à sensação de insegurança, eu também tive um pouco, principalmente à noite. Eu procurava sair rápido do metrô e caminhava a passos largos no caminho entre a estação do metrô e o apartamento que fiquei lá (não era tão central). No metrô sempre aparecia gente pedindo dinheiro, e o pessoal não tinha um jeito tão amigável.

    Mas a pior experiência foi com os africanos que “oferecem” pulseiras na escadaria da Sacre Coeur. Eu passei por eles com as mãos no bolso da blusa, tentei desviar o máximo que pude, mas um deles segurou o meu braço e puxou o meu pulso pra colocar a tal pulseirinha. Em seguida eles se juntaram em três, impossibilitando qualquer tentativa de fuga da minha parte.

    Depois de um deles finalizar a confecção da pulseira no meu braço, veio o golpe. O rapaz pediu a tal “caixinha”, mas não era qualquer contribuição. Lembro que dei uma moeda de 2 euros, ele falou que era muito pouco e queria mais. Dei mais 1 euro e ele pediu mais. Ele fez um sinal com as mãos e mostrou a carteira dele indicando que não queria moedas, mas sim cédulas. Para a minha sorte, neste dia eu estava com o bolso cheio de moedas e não tinha nenhuma nota guardada nele. Para conseguir me livrar daquela enrascada, acabei dando todas as moedas. Acredito que foram uns 7 euros, mais ou menos. Foi como um assalto consentido, mas ainda assim eu fiquei aliviado, pois a menor nota que eu tinha na carteira era de 20 euros. Por sorte ela estava bem escondida.

    Lamento por todos os problemas que você passou por lá. Só ficaram as (péssimas) impressões. Eu tive experiências muito boas e algumas desagradáveis, mas felizmente as boas prevaleceram. E posso dizer que a minha viagem ficou ainda melhor quando parti de Paris com destino a Amsterdã. Foram dias inesquecíveis!

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      Robbie Robbie 04/12/2017 (20:06)

      Oi, Leonardo!
      O meu hostel era bem do ladinho do Sacre Coeur, então quando fui andar por Montmartre, eu vi esses grupos lá. E tava na cara que aquele monte de cara à toa ali não era nem turista, nem comerciante. Com tudo o que eu já tinha passado (e com o radar super sensível), não cheguei nem perto quando vi. E se via algum outro grupo deles chegando mais perto, já saía correndo. Mas imagina na minha situação, com o medo só crescendo? Foi um verdadeiro efeito bola de neve.

      No Gare du Nord, na primeira viagem, eu só tive um pouquinho de problema na volta. Foi quando o meu marido saiu de perto de mim por alguns instantes antes de a gente embarcar de volta à Holanda (saiu pra comprar lanche, ir no banheiro, sei lá). Parece que foi a deixa pra um monte de pedinte avançar em cima de mim, que tava sozinha e com as nossas bagagens. No que ele voltou, sossegou outra vez. Daí junta com tudo o que aconteceu dessa última vez e a que conclusão eu chego? De que Paris não é um local muito legal pra mulher viajar sozinha, não. 🙁

      Claro que não só pra mulher – taí você de prova que qualquer um pode cair nessas ciladas. Mas talvez eles enxerguem a gente como “presa fácil” e venham pra cima com tudo.

      Eu sei também que tudo depende muito da experiência pessoal – e a minha foi péssima. Mas é tanta história que tenho ouvido sobre Paris desde então, que nossa… é muito triste descobrir que tanta gente teve problema por lá. 🙁

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    Luiza Ferrari 01/12/2017 (20:03)

    Senti seu desespero e relembrei do sentimento ruim que tenho toda vez que vou a Paris. ODEIO aquela cidade com uma força inexplicável e não entendo pq tanta gente ama tanto aquilo.
    Me sinto insegura, tudo fede a xixi, golpe pra todo lado… Nem quero lembrar que em Março vou ter que passar um dia lá, pela quarta vez!
    Sou muito mais minha amada casa, Londres, ou qualquer outra cidade da Europa do que qualquer cidade da França – pq os franceses sempre tão grosseiros, são culpados por GRANDE parte do horror que sinto por aquele país.
    Sempre bom encontrar mais gente que sente o que eu sinto, pq na maioria das vezes só falta me baterem quando falo mal de Paris
    Bjinho

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      Robbie Robbie 02/12/2017 (11:37)

      Ai, Luiza, tô contigo! E olha, acho que o que também colaborou pra eu já não ter gostado de Paris da primeira vez foi que eu tinha passado uma semana incrível em Londres antes de ir pra lá. Meu marido e eu concordamos que teria sido muito melhor ter ficado 2 semanas em Londres (que tem tanto o que fazer!).

      E hoje em dia é complicado mesmo. Ninguém pode mais dar sua opinião de nada sem tudo virar um grande fuzuê. Ontem mesmo estava conversando com outras blogueiras sobre o quanto é difícil pra gente não poder abordar certos temas ou dar a nossa opinião sobre um assunto porque daí vem o Tribunal da Santa Inquisição da Internet pra cima de você. A gente acaba se auto-censurando pra evitar a fadiga (a parte do cheiro de urina mesmo foi uma das coisas que eu cortei antes de publicar o texto. Mas tanto isso é verdade que taí, você comentou). É triste, viu. 🙁

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        Luiza Ferrari 02/12/2017 (22:22)

        Pois é… Londres é sensacional, totalmente diferente de Paris. Pessoas educadas, cidade (relativamente) limpa, tudo lindo!
        Eu nunca escrevi sobre Paris no meu blog, exatamente por não ter nada de bom a dizer e ficar com preguiça dos comentários acabando comigo… Já falei que não tinha AMADO Santorini (nem disse que não gostei, hein) e recebi um email que olha… Quase fechei o blog, de tanta grosseria que li!
        Duro, duro!
        Mas amei o seu texto, seu jeito de escrever e amei o título! 😉

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          Robbie Robbie 03/12/2017 (20:33)

          Obrigada, Luiza! <3
          Poxa, isso é difícil mesmo. Você compartilha a sua experiência de viagem e tem gente que ainda acha ruim que não foi lá tudo isso. No meu caso, eu posso garantir que ninguém tá mais p da vida por não ter sido bom do que eu, hahaha! Mas é aquele ditado: vamo fazer o quê?